5 formas de potenciar o vocabulário da criança

As palavras aprendem-se a ouvir, a falar e a brincar com elas, muito antes de se aprenderem a ler. Cinco hábitos para o dia a dia e os livros para enriquecer o vocabulário que mais rendem em cada fase.

Ilustração em aguarela: numa banca de mercado, o pai agachado mostra uma alcachofa ao filho pequeno, que aponta entusiasmado para as beringelas, entre caixas de alho-francês, abóboras, pimentos vermelhos, laranjas e verduras, com o vendedor a sorrir atrás do balcão.
Ilustração: desenho explicativo, não uma fotografia.

Uma criança aprende palavras novas da mesma forma que aprende quase tudo: ouvindo-as muitas vezes, em situações que lhe dizem alguma coisa, e experimentando usá-las. Não é preciso material especial. O que conta é a quantidade e a qualidade da conversa que tem com os adultos à sua volta, e os livros são o atalho mais rico para isso.

A Academia Americana de Pediatria (AAP) resume-o numa frase, na página com dicas para ajudar a criança a gostar de ler: quando os livros fazem parte da rotina da família, as competências de linguagem das crianças crescem.

1. Ler em voz alta, todos os dias

A leitura em voz alta expõe a criança a palavras que raramente surgem numa conversa de cozinha: «galope», «tempestade», «envergonhado», «enorme». Bastam alguns minutos por dia, a uma hora certa, por exemplo antes de dormir.

2. Escolher livros para enriquecer o vocabulário

Nem todos os livros rendem o mesmo. A tabela é a sugestão da Pequenada, por idades aproximadas:

Idade aproximadaTipo de livroPorque ajuda
2–3 anosLivros de imagens com objetos do dia a dia, livros de rimasNomear coisas e ouvir sons repetidos
3–5 anosÁlbuns ilustrados com histórias curtas, livros de animaisPalavras de sentimentos, ações e descrições
5–7 anosContos tradicionais, livros informativos sobre um tema que a criança adoraPalavras menos comuns e vocabulário de temas
7–10 anosLivros com capítulos, poesia para crianças, dicionário ilustradoSinónimos, expressões, palavras abstratas

A melhor escolha é muitas vezes a que a criança escolhe. Um livro sobre dinossauros ou camiões, lido com entusiasmo, ensina mais palavras do que um livro «educativo» lido por obrigação.

3. Conversar a sério, e com a palavra exata

Fale com a criança como fala com alguém que quer ouvir a resposta. Conte o que está a fazer enquanto cozinha ou arruma, faça perguntas abertas («como foi?», «porque achas?») e use a palavra precisa em vez da genérica: não é só «um carro», é «uma ambulância»; não é só «bom», é «estaladiço» ou «macio».

As tarefas partilhadas são ótimas para isto. Pôr a mesa, separar a roupa ou guardar as compras dão dezenas de nomes novos; veja as tarefas domésticas adequadas a cada idade.

4. Repetir e acrescentar

Quando a criança diz uma frase curta, repita-a corretamente e acrescente uma ideia, sem a corrigir de forma direta. Se ela disser «o cão correu», pode responder «pois foi, o cão correu muito depressa atrás da bola». A criança ouve a forma certa e uma palavra nova, sem sentir que errou.

A criança dizO adulto responde
«Olha, pássaro!»«É uma gaivota, uma ave grande que vive perto do mar.»
«Tou cansado.»«Estás exausto? Foi uma tarde cheia.»
«Este é feio.»«Não gostas da cor? Achas que é escuro demais?»

5. Brincar com as palavras

Os jogos de linguagem treinam o ouvido e a memória sem parecerem lição:

Fazer destas brincadeiras um hábito ajuda; um tempo fixo para ler e jogar pode entrar nas regras da casa, como o tempo para os trabalhos ou para arrumar. E as rotinas funcionam melhor quando os pais seguem regras claras e previsíveis.

E os ecrãs?

Vídeos e aplicações não substituem a conversa com um adulto. A Organização Mundial da Saúde, nas recomendações de 2019 para crianças com menos de 5 anos, encoraja, nos momentos sedentários, a leitura e a narração de histórias com quem cuida da criança.

Quando falar com o pediatra

Cada criança tem o seu ritmo, e as consultas de saúde infantil acompanham a linguagem. Se tem dúvidas sobre a fala do seu filho, se ele parece não perceber o que lhe dizem ou se a forma como fala o preocupa, fale com o pediatra ou o médico de família. É ele quem decide se faz sentido uma avaliação por um terapeuta da fala. Mais temas na secção de educação e comportamento.

Perguntas frequentes

Quais são os melhores livros para enriquecer o vocabulário?

Os que a criança gosta de ouvir muitas vezes, com palavras um pouco acima das que já usa: álbuns ilustrados, rimas, contos tradicionais e livros informativos sobre os temas que a apaixonam.

Com que idade se deve começar a ler para a criança?

Quanto mais cedo, melhor. Mesmo antes de a criança perceber a história, ouvir a voz do adulto e ver imagens nomeadas é uma forma de aprender palavras.

Devo corrigir quando a criança diz uma palavra mal?

Em vez de corrigir diretamente, repita a frase da forma certa e acrescente uma ideia. A criança ouve o modelo correto sem sentir que errou.

Os desenhos animados ajudam a aprender palavras?

Não substituem a conversa com um adulto. A OMS, nas recomendações de 2019 para menores de 5 anos, encoraja a leitura e as histórias contadas por quem cuida da criança.

Quando devo preocupar-me com a fala do meu filho?

Sempre que tiver dúvidas, fale com o pediatra ou o médico de família. As consultas de saúde infantil avaliam a linguagem e, se for preciso, encaminham para um terapeuta da fala.