Obrigar as crianças a comer: sim ou não?
A resposta curta das fontes oficiais é não. A resposta longa é mais útil: há regras que os pais devem manter firmes à mesa, e a quantidade que a criança come não é uma delas.

«Não sais da mesa sem acabar o prato.» Muitos adultos cresceram com esta frase, e é natural repeti-la. As orientações portuguesas atuais vão noutro sentido: o SNS 24, na página sobre obesidade infantil, pede expressamente para oferecer porções pequenas e não obrigar a criança a comer, e o guia da DGS «Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos» lista «não forçar a criança a comer ou a deixar o prato completamente sem comida» entre as coisas a não fazer.
Este artigo é informação geral: não substitui a consulta com o pediatra ou o médico de família, que conhecem o seu filho. Se a criança come muito pouco de forma persistente, a decisão sobre o que fazer é do médico, não de um artigo.
Porque é que obrigar costuma correr mal
O guia da DGS descreve quatro formas de os pais controlarem a alimentação dos filhos e resume o que se sabe sobre cada uma:
| Atitude dos pais | O que o guia da DGS refere |
|---|---|
| Restrição | associada a efeitos indesejados, como menos hortícolas e fruta |
| Pressão para comer | pode ter o efeito oposto ao desejado |
| Encorajamento | associado a maior consumo de fruta e hortícolas |
| Permissividade | associada a mais bebidas açucaradas e menos pequeno-almoço |
A diferença entre pressionar e encorajar é a chave. Encorajar é pôr o alimento no prato, comê-lo também, elogiar quando a criança o prova. Pressionar é contar colheres, ameaçar com castigos ou prometer sobremesa em troca. O guia acrescenta que as lutas pelo controlo da refeição são normalmente infrutíferas.
Há ainda uma razão ligada ao apetite. A DGS pede que se respeite a capacidade da criança de regular a fome e a saciedade, e liga a ingestão de volumes acima das necessidades à desregulação desses mecanismos. Uma criança treinada a comer até ao fim do prato aprende a ignorar o sinal de que já está cheia.
Firme nas regras, flexível na quantidade
Não obrigar a comer não quer dizer deixar tudo ao critério da criança. O guia da DGS recomenda uma atitude assertiva, «sem guerras»: exigente nas regras, carinhosa e atenta à criança. Na prática, cabe aos adultos decidir:
- o quê: a refeição é a mesma para toda a família, sem pratos alternativos;
- quando: horários regulares e nada a petiscar antes;
- onde e como: à mesa, sentado, sem televisão, durante um tempo limitado.
E cabe à criança decidir quanto come do que está no prato. O guia da DGS lembra que, se a quantidade servida estiver ajustada ao que a criança costuma comer, na maioria das vezes ela come tudo.
O que dizer em vez de «come tudo»
| Em vez de | Experimente |
|---|---|
| «Só sais quando acabares.» | «Quando estiveres cheio, diz-me, e levantamos o prato.» |
| «Se comeres a sopa, tens gelado.» | «Hoje a sobremesa é laranja, para toda a gente.» |
| «Prova, senão ficas de castigo.» | «Não precisas de gostar. Podes cheirar ou dar uma dentadinha.» |
| «Olha o teu irmão, comeu tudo.» | «O pai também demorou a gostar de brócolos.» |
A DGS desaconselha criticar a criança à frente de outras, zangar-se por ela não comer e substituir a refeição por outro alimento do seu agrado. Também desaconselha subornar com doces, e o SNS 24 pede que a comida não seja usada como prémio nem castigo; explicamos porquê nos motivos para controlar o açúcar.
E se não comer nada?
Retire o prato sem drama quando for evidente que a criança não vai comer mais. O guia da DGS considera que mais de 30 minutos para uma refeição principal é demasiado, e lembra que ao jantar a sopa e a fruta bastam na maioria dos casos. A refeição seguinte vem a horas, sem lanche extra pelo meio.
Se a dificuldade é o dia a dia, as nossas 8 dicas para crianças que não querem comer entram nos horários, porções e alimentos novos. Para variar o que vai ao prato sem cair em modas, veja os alimentos saudáveis para crianças.
Quando falar com o pediatra
Fale com o pediatra se a recusa é recorrente, se a criança aceita cada vez menos alimentos diferentes, se deixou de comer depois de um engasgamento ou de um vómito, ou se perde peso ou parece doente. O guia da DGS pede que estes comportamentos sejam partilhados com o médico, a quem cabe decidir se basta vigiar ou se é preciso uma equipa especializada.
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Perguntas frequentes
Devo obrigar o meu filho a comer a sopa?
Não. Ofereça a sopa todos os dias, no início do almoço e do jantar, e coma-a também. O SNS 24 pede que não se obrigue a criança a comer, e a DGS recomenda oferecer de novo, sem pressão.
E obrigar a provar?
Convidar a provar é diferente de obrigar. Pode propor cheirar ou dar uma dentada pequena, mas aceite o «não» e volte a oferecer noutro dia. A DGS refere que um alimento novo pode precisar de 10 a 15 tentativas.
Deixar a criança comer só o que quer não a vai estragar?
Não obrigar não é ser permissivo. Os adultos decidem o que se come, quando e onde; a criança decide quanto. A DGS associa a permissividade a piores escolhas, e a pressão a resultados contrários aos pretendidos.
Posso dar sobremesa se ela não comeu o prato?
Se a sobremesa é fruta, como recomenda o SNS 24, pode fazer parte da refeição normal e não precisa de ser ganha. Doces como recompensa são desaconselhados pela DGS e pelo SNS 24.
A partir de quando uma criança que come pouco deve ir ao médico?
Não há um número de dias que sirva de regra. Fale com o pediatra se a recusa é frequente, se a variedade de alimentos encolhe, ou se a criança perde peso ou parece doente.